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Segredo

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A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

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Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

– Drummond

Dobrada à moda do Porto

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Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo. . .
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

– Álvaro de Campos

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Mandelbaum Bandelmaum, Mandeltraum Trandelmaum

nebuchadnezzars-dream-tree.jpgConta as amêndoas,

conta o que era amargo e te mantinha acordado,
conta-me também a mim:

procurei o teu olho, quando o abriste e ninguém te viu;
estiquei o fio secreto
pelo qual o orvalho, que pensaste,
desceu até aos cântaros;
guarda-os uma sentença que não chegou ao coração de ninguém.

Só então entraste, inteira, em nome do teu nome;
caminhaste com passos seguros para ti,
os martelos oscilavam livremente na armação do teu silêncio,
o que ouviste uniu-se a ti,
o morto também pôs o braço à tua volta,
e os três caminhastes através da noite.

Torna-me amargo.
Conta-me entre as amêndoas.

– Paul Celan

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Erros cometidos

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“Errei todo o discurso dos meus anos” – Camões

Os erros cometidos na vida a contrafio
levaram-me a perder uma vez mais
definitivamente e sem pesar
tudo o que tinha dado por perdido.

Metástase invasiva ou obsessão
daquele amor talvez mal entendido
não foi a covardia ou o egoísmo
o móvel que alentou a minha ideia
de convocar em mim este desastre
que demoliu comigo o mal causado.

E tento demorar o erro definitivo
num lento naufrágio
já vivido
porque esta fatigada ruína apaixonada
prepara-se para sofrer outros distintos
assumindo a queda já pactada
precipitando-se nesses inofensivos erros desejados
evitando o redemoinho que me leva
nos espirais do nada.

– Lois Pereiro

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Como?

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Mas como, gente,
se estamos em janeiro de 1967
e é de tarde
e alguns fios brancos já me surgem no pentelho?
Como ser neutro se acabou de chover e a terra cheira
e o asfalto cheira
e as árvores estão lavadas com suas folhas
e seus galhos
existindo?
Como ser neutro, fazer
um poema neutro
se há uma ditadura no país
e eu estou infeliz?

– Ferreira Gullar

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Funeral Blues

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Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

– W. H. Auden

Metrô Linha 743

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Vivemos sem sentir o país sob os pés,
Nem a dez passos ouvimos o que se diz,
E quando chegamos enfim à meia fala
O montanheiro do Krémlin lá vem à baila.
Dedos gordurosos como vérmina gorda.
Riem-se-lhe os bigodes de barata,
Reluzem-lhe os canos da bota alta.
À volta a escumalha — guias de fino pescoço —
Nas vênias da semigente ele brinca com gozo.
Um assobia, o outro geme, aquele mia,
Só ele trata por tu, escolhe companhia.
Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,
Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.
Cada morte que faz — crime malino
E o peitaço tem amplo, o ossetino.

– Mandelstam
[Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra]