Estreitos são os barcos

…Estreitos são os barcos, estreito nosso leito.
Imensa a extensão das águas, mais vasto nosso império
Nas câmaras fechadas do desejo.

Entra o Verão, que vem do mar. Ao mar somente, nós diremos
Quão estranhos fomos nas festas da Cidade, e que astro subindo das festas submarinas
Veio uma tarde, sobre nosso leito, farejar o leito do divino.

Em vão a terra próxima nos traça sua fronteira. Uma mesma onda pelo mundo, uma mesma onda desde Tróia
Rola sua anca até nós. Muito ao largo longe de nós este sopro foi imprimindo outrora…
E o rumor uma tarde foi grande nas câmaras: a própria morte, a som de búzios, não se faria ouvir!

Amai, ó casais, os barcos; e o mar alto nas câmaras!
A terra uma tarde chora seus deuses, e o homem caça feras ruivas; as cidades se gastam, as mulheres sonham… Que haja sempre à nossa porta
Essa alvorada imensa que mar se chama – escol de asas e erguer de armas, amor e mar de mesmo leito, amor e mar no mesmo leito –

e esse diálogo ainda nas câmaras:

1 —

 

“… Amor, amor, que tão alto manténs o grito do meu nascimento, quanto há de mar em marcha para a Amante! Vinha pisada sobre toda praia, benefício de espuma em toda carne, e canto de bolhas sobre as areias… Homenagem, homenagem à Vivacidade divina!

Tu, homem ávido, me desvestes: senhor mais calmo que em seu convés o mestre do navio. E tanta tela se desfaz, nada mais há na mulher senão o que te agrada. Abra-se o Verão, que vive de mar. E meu coração te abre mulher mais fresca do que a água verde: semente e seiva de doçura, o ácido mesclado ao leite, o sal ao sangue vivíssimo, e o ouro e o iodo, e o sabor também do cobre e seu princípio de amargor – todo o mar em mim trazido como na urna materna…

E sobre a praia do meu corpo o homem nascido do mar se estendeu. Que refresque seu rosto na própria fonte sob as areias; e se regozije sobre a minha eira, como o deus tatuado de filicíneas… Meu amor, tu tens sede? Sou mulher a teus lábios mais nova que a sede. E meu rosto entre tuas mãos como nas mãos frescas do naufrágio, ah! Que ele te seja na noite cálida frescor de amêndoas e sabor de alvorada, e conhecimento primeiro do fruto sobre a orla estrangeira.

Eu sonhei, outra tarde, com ilhas mais verdes que o sonho… E os navegantes baixam à costa em busca de uma água azul; eles vêem – é o refluxo – o leito refeito das areias a escorrer: o mar arborescente aí deixa, ao entranhar-se, essas puras impressões capilares, como de grandes palmas supliciadas, de grandes jovens extasiadas que ele deita em lágrimas em suas tangas e em suas tranças desfeitas.

E estas são figurações do sonho. Mas tu, homem de fronte erecta, deitado na realidade do sonho, bebes na própria boca redonda, e conheces seu revestimento puníceo: carne de romã e coração de opúncia, figo da África e fruto da Ásia… Frutos da mulher, ó meu amor, são mais que frutos do mar: de mim sem pintura nem adornos, recebe as arras do Verão do mar…”

2 —

“… No coração do homem, solidão. Estranho é o homem, sem praias, junto da mulher, praiana. E mar eu mesmo a teu oriente, como mesclado à tua areia de ouro, que eu vá ainda e me demore, sobre a tua orla, no desenrolar muito lento dos teus anéis de argila – mulher que se faz e se desfaz com a onda que a engendra…

e tu mais casta por estar mais nua, só de tuas mãos vestida, não és Virgem das profundezas, Vitória de bronze ou de pedra branca que se recolhe, com a ânfora, nas grandes malhas carregadas de algas dos tarefeiros do mar; mas carne de mulher junto a meu rosto, calor de mulher sob o meu olfato, e mulher que seu aroma ilumina como a chama de fogo rosa entre os dedos semicerrados.

E como o sal está no trigo, o mar em ti em seu princípio, a coisa em ti que foi de mar, deu-te este sabor de mulher ditosa e de quem me achego… e teu rosto é voltado para cima, tua boca é fruto a consumir, em fundo de barca, dentro da noite. Livre meu alento sobre a tua garganta, e o remontar, de toda parte, dos lençóis do desejo, como nas marés de lua próxima, quando a terra fêmea se abre ao mar salaz e dócil, ornado de bolhas, até em suas marismas, suas maremas, e o mar alto na pastagem faz seu ruído de nora, a noite é cheia de eclosões…

Ó meu amor com sabor de mar, que outros apascentem longe do mar a écloga no fundo de estreitos vales – mentas, melissa e meliloto, tibiezas de alisso e de orégão – e fala alguém ali do direito sobre abelhas e um outro mercadeja com as crias das ovelhas, e a cordeira lanosa beija a terra no sopé dos muros de pólen negro. No tempo em que os pêssegos frutificam, e se escolhem os atilhos para a vinha, eu cortei o nó de cânhamos que prende o casco sobre o berço, ao seu berço de madeira. E meu amor está sobre os mares! E meu ardor está sobre os mares!…

Estreitos são os barcos, estreita a aliança; e mais estreita tua medida, ó corpo fiel da Amante… E o que é este mesmo corpo, senão imagem e forma do navio? nacele e nave, e nau votiva, até em sua abertura mediana; construído em forma de carena, e sobre as suas curvas modelado, vergando o duplo arco de marfim ao desejo das curvas nascidas do mar… Os armadores de cascos, em todos os tempos, tiveram esse modo de ligar a quilha ao jogo das cavernas e balizas.

Barco, meu belo barco, que cede em suas balizas e traz a carga de uma noite de homem, tu me és barco que traz rosas. Tu rompes sobre a água cadeia de oferendas. E eis-nos aqui, contra a morte, nos caminhos de acantos negros do mar escarlate… Imensa a alvorada que mar se chama, imensa a extensão das águas, e sobre a terra feita sonho em nossos confins violeta, toda a vaga ao longe que cresce e se coroa de jacintos como um povo de amantes!

Não há usurpação mais alta que no barco do amor.”

– Saint-John Perse: « Étroits sont les vaisseaux », Amers, strophe IX

Anúncios

Uma resposta

  1. *** ***

    …Étroits sont les vaisseaux, étroite notre couche.
    Immense l’étendue des eaux, plus vaste notre empire
    Aux chambres closes du désir.

    Entre l’Été, qui vient de mer. À la mer seule, nous dirons
    Quels étrangers nous fûmes aux fêtes de la Ville, et quel astre montant des fêtes sous-marines
    S’en vint un soir, sur notre couche, fl airer la couche du divin.

    En vain la terre proche nous trace sa frontière. Une même vague par le monde,
    une même vague depuis Troie
    Roule sa hanche jusqu’à nous. Au très grand large loin de nous fut imprimé jadis ce souffle…
    Et la rumeur un soir fut grande dans les chambres : la mort elle-même, à son de conques, ne s’y ferait point entendre !

    Aimez, ô couples, les vaisseaux ; et la mer haute dans les chambres !
    La terre un soir pleure ses dieux, et l’homme chasse aux bêtes rousses ; les villes s’usent, les femmes songent… Qu’il y ait toujours à notre porte
    Cette aube immense appelée mer – élite d’ailes et levée d’armes, amour et mer de même lit, amour et mer au même lit –

    I —

    « … Amour, amour, qui tiens si haut le cri de ma naissance, qu’il est de mer en marche vers l’Amante! Vigne foulée sur toutes grèves, bienfaits d’écume en toute chair, et chant de bulles sur les sables… Hommage, hommage à la Vivacité divine !

    « Toi, l’homme avide, me dévêts : maître plus calme qu’à son bord le maître du navire. Et tant de toile se défait, il n’est plus femme qu’agréée. S’ouvre l’Eté, qui vit de mer. Et mon coeur t’ouvre femme plus fraîche que l’eau verte : semence et sève de douceur, l’acide avec le lait mêlé, le sel avec le sang très vif, et l’or et l’iode, et la saveur aussi du cuivre et son principe d’amertume — toute la mer en moi portée comme dans l’urne maternelle…

    « Et sur la grève de mon corps l’homme né de mer s’est allongé. Qu’il rafraîchisse son visage à même la source sous les sables; et se réjouisse sur mon aire, comme le dieu tatoué de fougère mâle… Mon amour, as-tu soif ? Je suis femme à tes lèvres plus neuve que la soif. Et mon visage entre tes mains comme aux mains fraîches du naufrage, ah ! Qu’il te soit dans la nuit chaude fraîcheur d’amande et saveur d’aube, et connaissance première du fruit sur la rive étrangère.

    « J’ai rêvé, l’autre soir, d’îles plus vertes que le songe… Et les navigateurs descendent au rivage en quête d’une eau bleue; ils voient — c’est le reflux — le lit refait des sables ruisselants : la mer arborescente y laisse, s’enlisant, ses pures empreintes capillaires, comme de grandes palmes suppliciées, dans leurs pagnes et dans leurs tresses dénouées.

    « Et ce sont là figurations du songe. Mais toi l’homme au front droit, couché dans la réalité du songe, tu bois à même la bouche ronde, et sais son revêtement punique: fruit d’Asie… Fruits de la femme, ô mon amour, sont plus que fruits de mer : de moi non peinte ni parée, reçois les arrhes de l’Eté de mer… »

    2 —

    « …Au coeur de l’homme, solitude. Etrange l’homme, sans rivage, près de la femme, riveraine. Et mer moi-même à ton orient, comme à ton sable d’or mêlé, que j’aille encore et tarde, sur ta rive, dans le déroulement très lent de tes anneaux d’argile — femme qui se fait et se défait avec la vague qui l’engendre…

    « Et toi plus chaste d’être plus nue, de tes seules mains vêtue, tu n’es point Vierge des grands fonds, Victoire de bronze ou de pierre blanche que l’on ramène, avec l’amphore, dans les grandes mailles chargées d’algues des tâcherons de mer; mais chair de femme à mon visage, chaleur de femme sous mon flair, et femme qu’éclaire son arôme comme la flamme de feu rose entre les doigts mi-joints.

    « Et comme le sel est dans le blé, la mer en toi dans son principe, la chose en toi qui fut de mer, t’a fait ce goût de femme heureuse et qu’on approche… Et ton visage est renversé, ta bouche est fruit à consommer, à fond de barque, dans la nuit. Libre mon souffle sur ta gorge, et la montée, de toutes parts, des nappes du désir, comme aux marées de lune proche, lorsque la terre femelle s’ouvre à la mer salace et souple, ornée de bulles, jusqu’en ses mares, ses maremmes, et la mer haute dans l’herbage fait son bruit de noria, la nuit est pleine d’éclosions…

    « Ô mon amour au goût de mer, que d’autres paissent loin de mer l’églogue au fond des vallons clos — menthes, mélisses et mélilot, tiédeurs d’alysse et d’origan — et l’un y parle d’abeillage et l’autre d’agnelage, et la brebis feutrée baise la terre au bas des murs de pollen noir. Dans le temps où les pêches se nouent, et les liens sont triés pour la vigne, moi j’ai tranché le noeud de chanvre qui tient la coque sur son ber, à son berceau de bois. Et mon amour est sur les mers ! Et ma brûlure est sur les mers!…

    « Étroits sont les vaisseaux, étroite l’alliance; et plus étroite ta mesure, ô corps fidèle de l’Amante… Et qu’est ce corps lui-même, qu’image et forme du navire ? Nacelle et nave, et nef votive, jusqu’en son ouverture médiane; instruit en forme de carène, et sur ses courbes façonné, ployant le double arceau d’ivoire au voeu des courbes nées de la mer… Les assembleurs de coques, en tout temps, ont eu cette façon de lier la quille au jeu des couples et varangues.

    « Vaisseau, mon beau vaisseau, qui cède sur ses couples et porte la charge d’une nuit d’homme, tu m’es vaisseau qui porte roses. Tu romps sur l’eau chaîne d’offrandes. Et nous voici, contre la mort, sur les chemins d’acanthes noires de la mer écarlate… Immense l’aube appelée mer, immense l’étendue des eaux, et sur la terre faite songe à nos confins violets, toute la houle au loin qui lève et se couronne d’hyacinthes comme un peuple d’amants !

    « Il n’est d’usurpation plus haute qu’au vaisseau de l’amour. »

    agosto 2, 2010 às 10:12 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s