Domingo no postal

Em Paris, sou linguagem. Dou ao céu inane
certas constelações de utensílios sonoros.
Do corpo que amei, resta o vestido vazio,
forma de seio em linho, avidez no deserto.

Fonte de qualquer tarde, uma estação se instala
no meu ombro, como um pássaro. Sou a figura
que desce do metrô, segue as margens do Sena
e se vê, miserável, à sombra dos plátanos.

Ó mundo natural de amantes sobre a relva
das ilhas afortunadas, postal já pronto,
ó horror da linguagem! completo universo
que reclama da escritura só uma glosa.

A ponte Mirabeau ri de minha semântica
eterna em seu domingo, no puro horizonte
de quartzo, e Paris, fêmea de pedra, canta
só para mim sua suja canção humana

– Ledo Ivo

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