confissões

Confissões de Narciso

Que pensará meu pai de mim agora
E dele que poderei pensar
Eu que pensando nele
Tanto gostaria de saber o que pensa de mim agora?
(Não será essa a última hora da confissão
Nem a primeira hora do nascimento)
Mas que pensaria meu pai ao me ver chorar?

Que pensaria minha mãe
Me vendo agora beijar outras bocas, outros seios, a procurá-la como alimento?
Sei que jamais saberei o que se passou naquele momento
Como não sei quase o que se passa agora
Lá fora a noite é cheia de compromissos
E eu, omisso, gravo aqui meus sentimentos
Guardado talvez de mim, guardado talvez dos outros
E querendo estar tão absorto
Que jamais soubesse como lá fora a noite se eterniza em nunca e jamais
Jasmins exalam
Flores crescem durante a noite e durante a noite despetalam
Indiferentes ao fato de que pela manhã lhes arrancarão o talo
E eu por que falo?
Por que não escrevo, por que não beijo?
Por que não caço o inexistente poema, borboleta imaginária?

Minha mãe sempre me pareceu absorvida e mal amada
Uma vida doada para nada
E meu pai sempre me pareceu estrangeiro
Como todos os pais
Eu sequer por furto tive dele um sorriso
Nem a mão por compromisso de andar até o outro lado da rua

Minha vida foi sempre nua desde o primeiro dia
E sequer me alivia
E sequer eu quero que alivie
Sequer eu quero que passe a vida
Sequer eu quero que continue
Eu quero apenas despir-me
(Embora já esteja tão despido)
E quisera então quem me possuíra

Ai quisera somente dizer essas mentiras
Para quem cresse em mentiras
E pudesse vê-las mais verdadeiras que as verdades que são ditas

Na casa ao lado há conversas mais sérias que poesia
Há um plano de recuperar as moedas, as finanças, a pátria, deus e a família
Tudo que é falido desde o começo
Mas eu de tudo também participo
E até em meu endereço chegam as cartas e o telefone toca
(Serão avisos?)

Deveria estar num comitê que discute o amanhã
E as outras políticas do amanhã
Mas eu sequer desejo sair da cama

Quisera somente beijos, desses que não se proclamam
Beijos talvez cruéis, que se derramam da boca e sangram
E também quisera que o meu desejo
Não escapasse enquanto fosse o meu desejo
E atendesse ele próprio ao que deseja
Não me usasse para atendê-lo (ele que tanto me reclama)

– José Carlos Capinan

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s