verde-oliva desbotado

Que sensação estranha tive ao ver um pobre homem que se arrastava pela rua, vestido de um casaco bastante desbotado, de um verde claro puxando pro amarelo. Senti pena dele, no entanto, o que mais me comoveu foi a cor daquele casaco: ela me lembrava tão claramente a minha iniciação na arte nobre da pintura. Era justamente uma das minhas cores preferidas. Não é realmente triste que estas nuances, nas quais ainda penso com tanto prazer, não se apresentem em lugar nenhum na vida? Todo mundo as acha violentas e cruéis, dignas, no máximo, das imagens de Nuremberg. Se por acaso as encontramos, é infelizmente sempre em casos como este. Tem que ser sempre um pobre louco ou um fracassado, enfim, um homem que se sente estrangeiro na vida e que o mundo se recusa a reconhecer. E eu, que sempre vestia os meus heróis com este verde-amarelo para sempre inesquecível! Não é assim com todos os coloridos da infância? A resplandecência que a vida possuía torna-se então pouco a pouco violenta demais, crua demais para nossos olhos enfraquecidos.

– S. Kierkegaard, “Diapsalmata”

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