Carta Seis

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Da tristeza e do cativeiro do nosso antepassado. A carta termina com uma proposta experimental de começar a publicar um jornal para ele.

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Nas jaulas do zoológico, os animais parecem relativamente felizes.
Eles chegam ao ponto de se reproduzir.
Filhotes de leão são amamentados por cadelas, e assim nunca ficam sabendo de sua origem nobre.

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Dia e noite, hienas correm em disparada dentro de suas jaulas como se trabalhassem no mercado negro.
As quatro patas da hiena estão dispostas bem próximas à sua bacia.
Os leões adultos suspiram.

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Os tigres andam de um lado para o outro das barras de suas jaulas.
Os elefantes esfregam seus couros.
As lhamas são muito bonitas. Cada uma delas tem uma roupa quente de lã e uma cabeça graciosa. Como você, Alya.

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Tudo fica fechado no inverno.
Do ponto de vista dos animais, a diferença é pouca.
O aquário permanece aberto.
Na água azul, iluminada pela eletricidade e parecida com refrigerante, há peixes nadando. No entanto, o que se vê detrás de alguns vidros é completamente horrível. Uma arvorezinha remexe lentamente seus galhos brancos. Por que tamanha miséria teve de ser criada neste mundo?

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O símio antropóide, em vez de ser vendido, foi colocado no andar superior ao do aquário. Você, Alya, está tão, mas tão ocupada atualmente, que eu disponho de todo o meu tempo para mim. Eu visito o aquário.
Eu não preciso do aquário, mas o zoológico seria útil para traçar paralelos.
O símio, Alya, tem mais ou menos a minha altura, mas tem os ombros mais largos e os braços mais longos. Ele não parece estar trancado numa jaula.
Apesar dos seus pêlos e do seu nariz, que parece estar quebrado, ele me dá a impressão de um prisioneiro.
E a jaula não é uma jaula, é uma prisão.

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A jaula é dupla, não me lembro se um sentinela passeia ou não em frente às grades. O símio (é um macho) fica entediado o dia inteiro. Às três horas, dão a ele de comer. Ele come num prato. Em seguida, ele se dedica a fazer suas incômodas necessidades de símio. É humilhante e vergonhoso.
Agimos em relação a ele como se fosse um homem, e ele se comporta de maneira indecente.

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Durante o resto do tempo, o símio passeia na jaula cobiçando os visitantes. Não tenho certeza de que tenhamos o direito de manter parente distante na prisão sem ter sido julgado.
Onde está o cônsul dele?

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Longe da floresta, o símio deve se entendiar. Os homens lhe parecem ser maus espíritos. O dia todo, este pobre estrangeiro se chateia em seu Zoológico interior.
Para ele, não se publica nem sequer um jornal.

– Victor Chklóvski – “Zoo”

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Khlebnikov:

https://copodemar.wordpress.com/2011/09/06/zoo/

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