poesia

Lisboa com suas casas de várias cores

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Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

José João Brito («Atenção obras», 1985)

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

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Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

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Segredo

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A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

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Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

– Drummond


Dobrada à moda do Porto

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Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo. . .
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

– Álvaro de Campos

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Mandelbaum Bandelmaum, Mandeltraum Trandelmaum

nebuchadnezzars-dream-tree.jpgConta as amêndoas,

conta o que era amargo e te mantinha acordado,
conta-me também a mim:

procurei o teu olho, quando o abriste e ninguém te viu;
estiquei o fio secreto
pelo qual o orvalho, que pensaste,
desceu até aos cântaros;
guarda-os uma sentença que não chegou ao coração de ninguém.

Só então entraste, inteira, em nome do teu nome;
caminhaste com passos seguros para ti,
os martelos oscilavam livremente na armação do teu silêncio,
o que ouviste uniu-se a ti,
o morto também pôs o braço à tua volta,
e os três caminhastes através da noite.

Torna-me amargo.
Conta-me entre as amêndoas.

– Paul Celan

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Erros cometidos

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“Errei todo o discurso dos meus anos” – Camões

Os erros cometidos na vida a contrafio
levaram-me a perder uma vez mais
definitivamente e sem pesar
tudo o que tinha dado por perdido.

Metástase invasiva ou obsessão
daquele amor talvez mal entendido
não foi a covardia ou o egoísmo
o móvel que alentou a minha ideia
de convocar em mim este desastre
que demoliu comigo o mal causado.

E tento demorar o erro definitivo
num lento naufrágio
já vivido
porque esta fatigada ruína apaixonada
prepara-se para sofrer outros distintos
assumindo a queda já pactada
precipitando-se nesses inofensivos erros desejados
evitando o redemoinho que me leva
nos espirais do nada.

– Lois Pereiro

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Como?

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Mas como, gente,
se estamos em janeiro de 1967
e é de tarde
e alguns fios brancos já me surgem no pentelho?
Como ser neutro se acabou de chover e a terra cheira
e o asfalto cheira
e as árvores estão lavadas com suas folhas
e seus galhos
existindo?
Como ser neutro, fazer
um poema neutro
se há uma ditadura no país
e eu estou infeliz?

– Ferreira Gullar

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Funeral Blues

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Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

– W. H. Auden